domingo, 14 de julho de 2013



O CORVO


Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, 
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, 
E já quase adormecia, ouvi o que parecia 
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.      É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro 
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. 
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada 
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais - 
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, 
     Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo 
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! 
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo: 
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; 
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. 
     É só isto, e nada mais."
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, 
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais; 
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo 
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais, 
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. 
     Noite, noite e nada mais.

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